Nem Velha nem Nova, só Bossa

Pianista, locutor esportivo, flamenguista fanático e compositor de uma respeitável fieira de sucessos, de Aquarela do Brasil  a Na batucada da vida, Ary de Resende Barroso, mineiro de Ubá e carioca por destino, foi um avalista da inquietação bossa-novista desde o primeiro momento. Conhecido por seu humor mordaz, Ary ("escreva Ary com y, pois Ary com I não sou eu", dizia) já era um nome consagrado noacionalmente quando o movimento surgiu e por isso foi logo procurado pelos jovens da Zona Sul. Não era pra menos. Além da indiscutível autoridade como músico, ele era demolidor em suas opiniões, característica que o levou a se arriscar sem sucesso na carreira política.

"Não há Bossa Nova ou Bossa Antiga, o que há é apenas Bossa", sentenciou Ary, quatro anos antes de sua morte, em entrevista a Miriam Alencar publicada em janeiro de 1960 pelo Jornal do Brasil. Mas reservou aos "rapazes da Bossa Nova"
todo o seu "pespeito, admiração e gratidão pelo miuto que estão fazendo pela música popular, que atualmente anda com inflação de falsos autores. Os Bossa Nova são formidáveis." E o mais formidável deles, disse, era "Antonio Carlos Jobim, sem esquecer outros como Ronaldo Bôscoli e Carlinhos Lyra".

Na mesma entrevista, Ary Barroso arriscava uma interpretação e uma análise quase professoral da então recentíssima explosão da Bossa Nova: "A música popular dos países sofre influência de tempos. Depois da guerra de 1914 surgiu o jazz. Depois da guerra de 1939 apareceu o surrealismo, tanto na música como nas artes em geral. Para mim, o Papa da Bossa Nova é Antonio Carlos Jobim. Tom conseguiu trazer o ritmo da escola de samba para as orquestras de salão. O mesmo que eu fiz com a Aquarela do Brasil, que trouxe a marcação do tamborim para as grandes orquestras."
Ary Barroso, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli e
Sérgio Ricardo
Para Ary Barroso, "a Bossa Nova é o próprio samba telecoteco", forma onomatopaica que definia uma intenção rítmica predominante na época: "Há uma grande separação rítmica do samba antigo para o moderno. O antigo deixava-se levar pela marcação do bordão do violão e pela banda de música dos salões, com o chamado samba amaxixado. Era o samba de Francisco Alvez e Sílvio Caldas. Hoje predominam o ritmo e o sentido harmônico moderno, até a maneira de tocar violão foi modificada. O violão deixou de ser o bordão do conjunto para transmitir sons macios e agradáveis, sem predominar."
Apesar de todos esses elogios, Carlinhos Lyra nunca se iludiu. Ele está convencido de que Ary não gostava de Bossa Nova, mas o seu aval foi importante: "Dorival Caymmi sempre foi mais Bossa Nova que o Ary". Mesmo que João Gilverto tenha incluído Ary em seu repertório, de Morena boca de ouro a Aquarela do Brasil, passando por Sandália de prata, É luxo só e Na baixa do Sapateiro. Mas para o pianista e arranjador Wagner Tiso, Ary está no mesmo patamar de seus ídolos Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos: "Eke é precursor do Tom na forma de encadear melodia e harmonia, um dos melhores que temos."

Na morte de Ary em fevereiro de 1964, o cronista e compositor Antonio Maria, que morreria meses depois, escreveu: "Ninguém, até hoje, fez, em música e pela música do Brasil, o que fez esse mineiro inquieto, vagotônico até a medula, trabalhador incansável do seu êxito em vida e da imortalidade de sua obra. Sua passagem à posteridade foi certa e merecida. Se, daqui a cinquenta anos, ninguém por aqui se lembrar mais de sua Aquarela, um escocês será capaz de tocar em gaita-de-fole a grande melodia da segunda parte."

Texto de Anotações com Arte, 50 anos de Bossa Nova.


Ary Barroso - Inquietação, Interpretação de  Dorival Caymmi


Mais um pouco de Bossa Nova:
     

E estamos nós, aqui, lembrando dele, quase cinquenta anos depois. Que maravilha essa 'Bossa'.


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