Nem Sinatra Mereceu uma dessas!


Tom Jobim jamais confessou, mas deve ter se arrependido de recusar aquela cantora um pouco estrábica e ''muito caipira'' para o seu gosto, quando dirigiu a gravação de Pobre menina rica de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. Perdeu a chance de dar À Bossa Nova, que mal havia nascido, o luxo de ter o nome de Elis Regina registrado oficialmente na sua história. Se houve ou não arrependimento, Tom corrigiu a tempo o seu erro de avaliação, ao se trancar por quase tres semanas com Elis, de 22 de fevereiro a 9 de março de 1974, no estúdio da MGM em Los Angeles, e gravar um dos melhores (senão o melhor) e mais importantes discos da música brasilleira, com arranjos de César Camargo Mariano. "Elis & Tom" também redime a história da Bossa Nova da ausência da cantora que ainda hoje, tres décadas depois da sua morte, se mantém como a melhor do País. O disco foi o presente que a gravadora Phonogran ofereceu à cantora para comemorar seus dez anos de carreira.

A idéia do disco talvez já esivesse na cabeça de Elis, quando ela conheceu Tom Jobim, segundo seu
depoimento em 1973, ao programa "Ensaio" de Fernando Faro, na TV Cultura de São Paulo. Elis fala do seu encontro com Tom: "Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é uma pessoa realmente incrível, um cara tão inteligente, tão vivido e ao mesmo tempo tão novo, tão aberto a todas as coisas que estão pintando, uma pessoa tão bem informada. Mesmo que eu não gostasse dele, o que não é o caso, eu teria que dizer que é uma pessoa maravilhosa. Conheci o Tom há um ano e pouco atrás. Eu não o conhecia pessoalmente, só de bom dia, boa tarde, quando ele foi à minha casa pra me mostrar Águas de março. O (Roberto) Menescal chegou na frente e disse: Olha, o Tom vem aí, que ele tem uma música nova que você vai lançar. Eu disse, olha, vai abrir a porta que eu não tenho coragem. Fiquei sentada, com dez mãos, setenta cabeças, setenta pés, não sabia o que fazer. E ele também é uma pessoa muito encabulada. Ele ficou brincando para quebrar o gelo, quebrar o nervosismo inicial daquela partida. Cantou setenta vezes a música, com aquele oclinhos para ler a letra que eu não sabia. Me botava no meio da letra, parava. Poxa, Élis, essa é ótima! Nem Sinatra mereceu uma dessas, pomba! Me chamava de Élis (com acento no é) e o César, de Mariano. Ô, Mariano! Ele sabe tudo, mas gosta de fazer o bobo, o cara que está sempre chegando naquela hora. E você pensa que vai encontrar um cara que não te conhece direito, e ai ele sabe até que sua mãe chama Ercília e seu pai chama Romeu. Quer dizer, já está com a ficha toda arquivada. Eu gosto muito dele."

Mas quando eles se reencontraram em Los Angeles, para as gravações, estavam outra vez encabulados. Tom foi recebê-la no aeroporto com uma flor e quis ter uma conversa profissional, antes mesmo de ela se instalar no seu hotel. Queria que os arranjos fossem feitos por seu amigo Claus Ogerman. Não deu certo. Enquanto, ao telefone, ele tentava inutilmente localizar Ogerman, o paciente César Camargo Mariano se fez de desentendido, foi ao piano e continuou trabalhando. No primeiro dia de estúdio Tom se recusou a usar piano elétrico. Usou e se deu bem. Elis ficou só olhando. Pensou em parar tudo e voltar para o Brasil, mas se controlou. Deixou ao produtor Aloysio de Oliveira a tarefa de segurar as pontas. Do seu jeito, Tom Jobim se desculparia disso tudo quando o disco ficou pronto e disse a César, de cujo talento como pianista e arranjador ele se fez admirador: "O problema é que vocês estão acostumados a tomar banho de chuveiro e eu, de banheiro". E assim Tom reescreveu um capítulo que ele mesmo, descuidadamente, havia deixado em branco na história da Bossa Nova.


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