Tom Jobim - encontros e desencontros

Arrumando o Desarrumado

Tom Jobim certamente existiria sem a Bossa Nova. Mas o contrário é verdade? A certeza que se tem é que não só por suas músicas, em parceria com Newton Mendonça ou Vinicius de Moraes, mas pelas suas qualidades de maestro e arranjador, Tom Jobim deu forma e acabamento à Bossa Nova. Mas afinal que coisa é essa chamada Bossa Nova? Walter da Silva, da revista Qualis, perguntou isso a Tom, em sua última entrevista em 1994. "Dar nome às coisas impede a compreensão", respondeu o maestro. "Eu chamo Maria de Maria e aí penso que conheço Maria. Mas Maria é um outra
coisa. A Bossa Nova ficou tão famosa que agora tudo que eu faço eles chamam de Bossa Nova. Mas não é. É uma coisa que atem bossa e é nova. Só que não é a Bossa Nova. Desafinado é, Garota de Ipanema também. É Bossa Nova Lígia? Não é, mas o pessoal chama de Bossa Nova".
Avesso a rótulos, Tom tinha uma definição divertida: "O músico bossa nova chega cansado, suado da festa. Ele se arruma todo o e vai tocar. Daqui a pouco ele está sequinho e não está mais suado, está bonito, tocando tudo certinho. Já o outro músico que não é da Bossa Nova, ele chega na festa todo arrumado, todo careta, e vai tocar, se despenteia todo e sua. É uma processo completamente inverso. Um chega arrumado na festa e acaba desarrumado. O outro chega desarrumado e acaba arrumadíssimo - é a Bossa Nova".
Quando se começou a gravar muita Bossa Nova nos Estados Unidos no início dos anos de 1960, depois do show no Carnegie Hall, ela era acusada de ser jazz. Na época Tom se revoltou com a comparação, mas depois reconheceu que foi isso "que deu consistência ao movimento, senão teria desaparecido". Afinal, americano sempre adiciona jazz a qualquer música que vem de fora - Cuban Jazz... Brazilian Jazz... Mas, como escreveu o crítico Tárik de Souza, a Bossa Nova "não iria aos Estados Unidos ensinar inglês, mas sem dúvida faria o jazz engolir de volta a influência". E o momento mais emblemático dessa volta do cipó foi o convite de Sinatra a Tom Jobim no final de 1966.
A gravação com Sinatra não apenas consolidou o prestígio da Bossa Nova nos Estados Unidos como abiu definitivamente as portas do mercado americano para Tom Jobim.
Se João Gilberto nunca levou a sério ser chamado de papa da Bossa Nova - "eu canto samba", ele dizia para escapar do rótulo - Tom não se incomodou em ser identificado com a nova corrente. Mas para ele a música, fosse ela Bossa Nova ou não, era um meio de resolver a angústia, de dissolver a depressão: "O piano funcionava como espelho na correção de meus defeitos. Procurava uma harmonia, uma coisa boa. Eu não ia fazer uma música para incentivar o suicídio, para arregimentar o ódio, nem para conduzir à droga. Nós temos uma responsabilidade. Não posso fazer m música que leve alguém à desgraça; A música tem que merecer a Bossa Nova: ter uma mulher bonita, ir à praia, talvez um dia ter um barco, navegar num barquinho azul. O conselho da Bossa Nova é de levar a pessoa à vida".

Encontro com Sinatra

Em janeiro de 1967, Tom Jobim desembarca em Los Angeles para gravar seu primeiro disco com Sinatra: Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. O convite chegou por telefone. Tom estava com amigos no Bar Veloso, Ipanema, quando o garçom lhe disse que tinha um gringo querendo falar com ele.

-Quero fazer um disco com você e quero saber se você acha isso interessante.

-Perfeitamente, é uma ordem.
-Você me acompanha no violão?
-Não sou violonista. Eu me sentiria mais à vontade no piano. Mas aceito.
Era Frank Sinatra. Tom ficou sabendo depois que esse tipo de convite, de caráter profissional, ele o fazia sempre pessoalmente. Os amigos que estavam no Veloso fizeram a maior festa. No primeiro encontro em Los Angeles, Sinatra chegou com tudo definido: seriam seis músicas de Jobim e seis de compositores americanos. Tom conseguiu impor o seu amigo Claus Ogerman como arranjador, além de incluir na orquestra o baterista brasileiro Doum Romão, que estava nos Estados Unidos. Nos dias seguintes, Tom e Ogerman ensaiaram no hotel onde estavam hospedados. Na primeira das três noites de gravações, 30 de janeiro, uma segunda-feira, Tom não escondia o desconforte de cantar e tocar violão ao mesmo tempo, uma tarefa difícil, a não ser que você seja um João Gilberto. Sinatra estava tranquilo. Ora brincando com Tom e Ogerman que lhe pediam voz mais suave ao cantar Dindi - "não canto assim desde que tive laringite". Ora interrompendo a gravação por cansaço e fome - "quem disser que pode cantar sem comer está maluco: você precisa ter combustível na fornalha".
Depois da última noite de gravação, foram a um restaurante comemorar. E motivos não faltavam, naquele momento e depois: o disco seria escolhido o melhor do ano e só perdeu, em vendas, para o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles - mas aí não vale, brincava Tom, os Beatles eram quatro.



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