Philip Glass e o minimalismo

Minimalismo - um breve comentário histórico

Faz quase meio século que uma estética musical surgida nos Estados Unidos acabou por tomar a dianteira de toda a vanguarda musical, em termos planetários. Ela ficou conhecida como 'minimalismo', ou 'música repetitiva'. Negava frontalmente os pressupostos da Neue Musik (música nova) europeia, a qual, nascida logo depois da Segunda Guerra Mundial, exigia que toda música surgisse de uma espécie de 'grau zero da escrita', sendo controlada em cada som representado no papel. No lugar dessa estética europeia, aquela nascida nos Estados Unidos propunha a facilidade de apreensão das obras musicais, a transparência - ou exibição, no próprio ato da atuação - das estruturas sonoras e a referencia direta ao velho sistema tonal. Transformava, assim, o já conhecido em inédito, causando no ouvinte a sensação de estar 'escutando o que ainda não havia sido ouvido na música tradicional'. Essa estética causou sensação exatamente pelo paradoxo que propunha: o da música que passa a impressão de pertencer ao passado, só que apresentada em caracterização nova, surpreendente e desconhecida.
Baseada na repetição e na variação paulatina dos elementos colocados em jogo durante a ação musical, como já foi dito, esse gênero de música voltou a se basear no sistema tonal e no emprego das consonâncias geradas por seus acordes perfeitos, de emprego lento e gradual, gerador de uma quase imobilidade. Contudo, os elementos colocados sobre esses acordes, ou sobre ritmos repetitivos, geram uma polifonia
capaz de provocar a sensação de movimento, de dar à música a sensação de dinâmica, e por conseguinte, de vida.

Foram múltiplos e heterogêneos os materiais empregados nos primórdios da música repetitiva. Por exemplo: modos, escalas, arabescos e ritmos extra-ocidentais, elementos instrumentais e vocais provenientes ora da África, ora das florestas do Amazonas, das músicas cerimoniais dos índios norte-americanos ou dos nativos centro-americanos. Nem sempre apegados a princípios da exploração etnomusicológica, os artistas minimalistas queriam desenvolver obras que acabassem por engendrar suas próprias formas, recorrendo para tanto ao manancial que a música do mundo lhes oferecia.
Para alguns, o ponto de partida da minimal music foi uma obra de Terry Riley (1935) intitulada In C (''Em Dó''), de 1964, destinada a qualquer gênero ou número de instrumentos. A ação musical baseia-se na repetição de uma oitava, em grupos de oito notas, na região aguda de um piano, padrão sobre o qual, paulatinamente, vão sendo sobrepostas 53 figuras numeradas, dotadas de quantidade variada de notas. Cada um desses fragmentos pode ser executado quantas vezes o instrumentista ou líder do grupo quiser, até passar à figura seguinte. (Há várias outras regras, das quais não trataremos aqui).
Os dois principais compositores surgidos logo depois de Terry Riley foram Steve Reich (1936) e Philip Glass (1937), responsáveis pela difusão internacional da nova estética. Estudando e pesquisando em várias partes do mundo, ambos trouxeram para suas linguagens elementos tão heteróclitos que, por vezes, fizeram com que suas obras apontassem para uma reconciliação das músicas popular, clássica e extra-ocidental. Não é a toa, portanto, que eles figuram entre os mais populares músicos de vanguarda do mundo inteiro, não apenas por sua produção, mas também pela extensa teia de influencias que lançaram sobre a comunidade musical.


Philip Glass

Philip Glass nasceu no dia 31 de janeiro de 1937, em Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos. Estudou matemática e filosofia na Universidade de Chicago. Depois, foi a Nova York, para estudar composição na Julliard School. Trabalhou com os músicos Darius Milhaud, Vincente Persichetti e William Bergsman. Em Paris, estudou durante dois anos com Nadia Boulanger. E foi então que encontrou Ravi Shankar, com quem se aprofundou nas técnicas da música indiana e na transposição dessa música para o sistema de notação ocidental. De volta a Nova York, em 1967, Glass foi um dos fundadores da companhia de teatro Mabou Mines, para a qual escreveu, e formou o Philip Glass Ensemble. Não se considerando "minimalista", ele se diz um artista que trabalha sobre "música com estruturas repetitivas". Esse período culminou com a obra Music in Twelve Parts, seguida da ópera que deu origem a um novo gênero, Einstein on the Beach, parceria de 1976 com Robert Wilson.

Tendo colaborado com artista que vão de Twyla Tharp a Allen Ginsberg, de Woody Allen a David Bowie, Philip Glass tem produzido um impacto extraordinário e sem precedentees sobre a vida musical e intelectual de seu tempo. Ele já esteve várias vezes no Brasil, trabalhando com artistas brasileiros e se inspirando em nosso mundo para elaborar algumas de suas obras, como Itaipu, por exemplo.
Dono de um enorme catálogo, Glass é autor de vinte óperas, oito sinfonias, vários concertos (para piano, violino, tímpanos, quarteto de saxofones), trilhas para baés, peças de teatro de cinema, além de obras para os mais variados conjuntos vocais e instrumentais. De sua produção mais recente, especialmente notável é a longa Oriom, peça destinada a seis grupos instrumentais (com intervenções vocais) provenientes de vários continentes e composta para as Olimpíadas Culturais de Atenas, de 2004. Trata-se de uma música literalmente transnacional, ne medida em que busca "falar a língua" das muitas comunidades ali representadas. Ao colocar lado a lado músicas de procedência tão diversas, o compositor pretendeu mostrar que se, por um lado, essas manifestações são bastante distintas, por outro, é possível relacionar-se com todas elas em algum nível artístico.

Itaipu, The Dum -Philip Glass

Fonte: Revista do Cultura Artística

0 comentários:

Postar um comentário

''A vida tem trilha sonora''