O Poeta e a Lyra

No início de 1960, Vinicius de Moraes se aproximou de Carlos Lyra que, dizia Tom, era "o grande melodista, o grande desenhista da Bossa Nova" - elogios que ele atribui ao fato de Tom ser muito generoso: "As duas faculdades que frequentei foram Tom e João Gilberto". E foi exatamente o João quem, em agosto de 1961, gravou a sua primeira parceria com Vinicius, Coisa mais linda. Depois veio uma sequencia para entrar na história. De Marcha da quarta-feira de cinzas e Minha namorada ao militante hino da União Nacional dos Estudantes, a UNE, passando pelo repertório riquíssimo do musical Pobre menina rica. O encontro de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes resultou em uma produção só comparável à que o poeta criou com Tom e depois com Baden Powell, tanto que chamou esses três parceiros de a sua "santíssima trindade". Mas o melhor de Lyra e Vinicius ainda estava pra vir. Foi quando na primeira semana de janeiro de 1963 eles estrearam o show Trailer, em Au Bon Gourmet, e mostraram as músicas de Pobre menina rica.
Ao receber do novo parceiro 16 músicas inéditas para colocar letra, Vinicius viu nelas a matéria-prima de uma comédia musical. Carlinhos, em seu site, narra o diálogo entre eles:
"Parceirinho, nossa comedinha se passa num terreninho baldio carioca. Do lado do baldio tem um edifício de apartamentos e lá na cobertura mora a Pobre Menina Rica! E o terreninho, por sua vez, é habitado por uma comunidade de mendigos... De mendigos, Vinícius? Não se preocupe, não, parceirinho. São uns mendiguinhos simpaticíssimos, incrementadíssimos e superorganizados, viu? Eles saem todo o dia, de manhã, pro seu trabalhinho de pedir esmola e liderados por um Mendigo-Chefe..." 
Se o resultado não tinha qualidade dramática que o credenciasse ao sucesso no palco - nem a versão adaptada para o cinema, com a título Para viver um grande amor, entusiasma Carlinhos - Pobre menina rica foi um acontecimento pela excelência de suas músicas. Duas delas passaram a ser obrigatórias em qualquer show, de Bossa Nova ou não - o dueto Primavera e Sabe Você. Mas as outras não ficaram atrás como o Samba do carioca ("Vamos, carioca, sai do seu sono devagar..."), Pau-de-arara (que Ary Toledo transformou em carro-chefe dos seus shows e ficou conhecido como Comedor de gilete) e Maria Moita cujo refrão, "pra por pra trabalhar gente que nunca trabalhou", Nara Leão espalhou pelo Brasil nos idos de 1964.
Lyra à esquerda, o produtor Aloysio de Oliveira, Nara Leão e Vinicius
E foi justamente Nara Leão que eles chamaram para o show Trailer, que apresentou em primeira audião as canções da comédia musical, que ainda estava sendo escrita. Aloysio de Oliveira, que meses antes convencera Vinicius a cantar em público ao lado de Tom e João Gilberto no mesmo restaurante do empresário Flávio Ramos, resolveu fazer "um trailer do primeiro ato da peça, num experimento inteiramente inédito no Brasil em matéria de show", conforme depoimento do poeta, que descreveu assim a estréia: "As luzes da boate se apagavam, nós entrávamos pé ante pé, quase em trevas totais. Eu ia sentar-me à minha cátedra improvisada, onde, o texto em mão, esperava, como quem espera o tiro de uma 45, o foco de luz que incidia sobre mim. O conjunto atacava suavemente a Marcha do amanhecer, eu pegava discretamente o copo de u[isque que tinha na mão, tomava aquele gole e começava... Ao lado sentia a torcida de meus dois companheiros de show: Nara Leão, no papel da Pobre Menina Rica, e Carlinhos Lyra, no do Mendigo-Poeta. E durante cinco semanas a sociedade carioca e de outros estados, que nunca deixara de nos prestigiar, desde as primeiras raízes do movimento da Bossa Nova, comparecia diariamente para nos ver... A nossa comédia musicada, num futuro não superior a um ano, quando as minhas funções de funcionários do Brasil no exterior o permitirem, estará pronta para ser encenada."
A peça, na verdade, nunca chegou a ser encenada como tal. O sucesso do Trailer levou Carlinhos Lyra a apresentá-la em forma de show, com um toque teatral (até cenário tinha) no Teatro Maison de France em dezembro de 1964 e, no ano seguinte, no Teatro de Bolso. Lançou as músicas de Pobre menina rica em um disco com arranjos de Tom Jobim, com a frustração de não ter conseguido convencer o maestro de que a cantora ideal seria Elis Regina. Carlinhos chegou a se reunir com Elis, ensaiar as músicas, mas Tom bateu o pé: queria Dulce Nunes e mais ninguém. E assim perderam o privilégio de apresentar ao Brasil aquela que se tornou a sua maior cantora.

Texto de Anotações com Arte, 50 anos de Bossa Nova.

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