Nara Leão - A Musa Meiga e Rebelde

Esta é uma continuação de O poeta e a Lyra.


"Chega de Bossa Nova". Ao soltar, em 1964, o grito de guerra contra o movimento que ajudou a criar no apartamento de seus pais, Jairo Leão e dona Altina, Nara não conseguiu se desfazer do título de musa da Bossa Nova. Nascida em Vitória do Espírito Santo, chegou criança ao Rio de Janeiro e, adolescente, estagiou do jornal Última Hora, fundado por Samuel Wainer, então casado com sua irmã Danuza. A convivência com Carlos Lyra, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli a fez trocar o acordeão, destino de toda moça de família, pelo violão. O seu apartamento no posto 4 em Copacabana se tornou ponto de encontro desse pessoal cansado de canções chorosas e acordes surrados. Para ela foram feitas músicas
como O barquinho, Se é tarde me perdoa e Lobo bobo, mas cantar profissionalmente ainda não estava nos seus planos.
Nara só estreou como cantora ao completar 21 anos, em janeiro de 1963. Trocou a platéia dos apartamentos por uma platéia não muito maior, no pequeno palco do restaurante Au Bon Gourmet, para cantar ao lado de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes as canções de Pobre menina rica. A temporada serviu de impulso para Nara gravar seu primeiro disco, depois de participar em duas faixas do disco "Depois do carnaval" de Carlos Lyra. Produzido por Aloysio de Oliveira para o selo Elenco, o disco "Nara" foi gravado no final de 1963 misturando o amor, o sorriso e a flor a Nelson Cavaquinho (Luz Negra), Zé Kéti (Diz que fui por aí) e Cartola e Elton Medeiros (O sol nascerá), compositores do morro a quem a cantora foi apresentada por Carlinhos. O disco não era ainda uma ruptura com a Bossa Nova, pois havia lugar para Vinicius, Baden, Carlos Lyra e Moacyr Santos. Em seguida Nara excursionou com Menescal e o trio de Sérgio Mendes, patrocinada pela Rodhia para lançar a moda brasileira no Japão, cantando um repertório cujo carro-chefe era Garota de Ipanema.

Chico Buarque e Nara Leão

Depois do golpe militar de 1964, Nara se transformou em uma das vozes da resistência à ditadura e à repressão política. No final daquele ano estreou ao lado de Zé Kéti e João do Vale no show Opinião, e quando, por motivo de saúde, precisou ser substituída indicou a desconhecida Maria Bethânia. Ao se recuperar, Nara voltou ao palco com Paulo Autran, Tereza Raquel e Oduvaldo Vianna Filho em  Liberdade Liberdade, espetáculo de Flávio Rangel e Millôr Fernandes que estreou em 21 de abril de 1965. De musa da Bossa Nova Nara assumiu a linha de frente das canções de protesto. Esse ativismo político - Nara chegou a pedir em entrevista o fim das Forças Armadas - a levou para fora do País, já casada com o cineasta Cacá Diegues. Nesse exílio voluntário na Itália e França ela se reaproximou da Bossa Nova e gravou um disco com repertório exclusivo da fase do banquinho e um violão. Mãe de Isabel e Francisco, deu um tempo para cuidar dos filhos e cursar Psicologia. Ao voltar, dedicou-se a cantar a Bossa Nova em shows aqui e no exterior e em cinco discos feitos de encomenda para o mercado japonês.
Chico Buarque reconheceu que Nara, ao interpretar A banda, deu impulso à sua carreira: "Ela ficou sendo a minha cantora, a minha preferida. Ela não era uma pessoa que seguia a moda, mas lançava moda". Ligada também ao pessoal que, a exemplo do que ocorria na música, buscava novas linguagens no cinema, namorada de Ruy Guerra e amida de Glauber Rocha e Arnaldo Jabor, Nara cantou o tema do primeiro filme de Cacá Diegues, Canga Zumba, escrito pelo maestro Moacyr Santos. "Dali", disse Cac´a Diegues ao jornal O Globo em 1999, "nasceu uma certa amizade que terminou em csamento e dois maravilhosos filhos, herdeiros de muitos de seus talentos e virtudes". Mas, ele conclui, "atrás da doçura e da meiguice da figura pública, estava uma mulher rigorosa, de uma luminosa radicalidade, que exigia de si mesma e do mundo à sua volta a virtude permanente da verdade".
O barquinho - Roberto Menescal y Ronaldo Bôscoli

0 comentários:

Postar um comentário

''A vida tem trilha sonora''